Crise silenciosa no Pantanal: pescadores denunciam falta de água potável e impactos ambientais
O representante da Comunidade Padilha, Adilson Mariano dos Santos, denunciou nesta terça-feira, 17 de março, a dificuldade enfrentada por pescadores do Pantanal, em Mato Grosso, para ter acesso à água potável — um problema que, segundo ele, já dura anos.
A declaração foi feita durante uma coletiva de imprensa após uma expedição de cerca de 900 km, que saiu do Rio Manso até o Pantanal. A iniciativa reuniu 25 profissionais, incluindo pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso, envolvidos na elaboração de um plano hidrográfico para o Rio Cuiabá.
“Antes da barragem, a gente vivia tomando água das nascentes. Hoje não temos mais isso. Agora precisamos comprar água, o que não acontecia antes”, relatou Adilson, que também atua como pescador profissional.
Ele reforçou que a comunidade aguarda soluções há anos. “Queremos uma resposta. Ninguém precisava comprar água antigamente”, afirmou.
A promotora de Justiça Ana Luiza Ávila Peterlini de Souza, da 15ª Promotoria de Defesa do Meio Ambiente de Cuiabá, alertou que a superfície de água no Pantanal sofreu uma redução de cerca de 70% nos últimos anos.
Segundo ela, o problema afeta diretamente a população mais vulnerável. “Estamos na maior planície alagável do planeta, mas muitas comunidades não têm acesso à água de qualidade — seja pela poluição dos rios ou pela dificuldade de perfuração de poços. Em muitos casos, é preciso comprar água na cidade”, explicou.
Além da Comunidade Padilha, localizada em Chapada dos Guimarães, outras regiões também enfrentam o mesmo cenário, como áreas de Barão de Melgaço. Entre as comunidades afetadas estão Estirão Comprido, Porto Brandão, Croará, Rancharia e Piúva.
Durante a expedição, os especialistas identificaram uma série de problemas ambientais, como poluição dos rios, descarte irregular de lixo, lançamento de esgoto sem tratamento e ausência de saneamento básico.
A promotora também destacou os impactos causados por empreendimentos no entorno do Pantanal, como usinas hidrelétricas. “Embora seja proibida a instalação dessas estruturas na planície alagável, há projetos no entorno que acabam afetando a disponibilidade de água, a reprodução dos peixes e todo o equilíbrio ambiental”, afirmou.
A bacia do Rio Cuiabá é considerada uma área crítica, com um dos principais pontos de desova de espécies comerciais, como o pacu, segundo estudo da Agência Nacional de Águas.
Atualmente, Mato Grosso possui 54 empreendimentos hidrelétricos em operação, sendo 47 de pequeno porte e sete usinas de grande porte, o que reforça a preocupação com os impactos acumulados na região.




