“Mulher deve ser submissa”, dizia tenente-coronel antes da morte da esposa
A decisão foi proferida pela 5ª Vara do Júri de São Paulo, que também decretou a prisão preventiva do militar. Ele já havia sido preso anteriormente por determinação da Justiça Militar, no âmbito de investigação conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar.
De acordo com a denúncia, mensagens extraídas do celular do acusado revelam um relacionamento conturbado, marcado por controle, cobranças e comportamento considerado machista pela acusação.
Em um dos trechos, o tenente-coronel descreve o modelo de relacionamento que considerava ideal, afirmando que deveria haver um “marido provedor” e uma mulher “obediente e submissa”. Em outra mensagem, enviada dois dias antes da morte da vítima, ele escreveu que toda mulher casada deveria se comportar dessa forma.
Nos diálogos, o militar também cobra da esposa mais atenção, carinho e dedicação, além de destacar que arcava com a maior parte das despesas do casal. Em resposta, Gisele contesta a visão do companheiro e afirma que não concordava com esse tipo de relação, chegando a mencionar o desejo de separação.
Segundo o Ministério Público, as mensagens indicam que a iniciativa de encerrar o relacionamento partiu da vítima, contrariando a versão apresentada pelo acusado, que sustenta que Gisele teria tirado a própria vida após uma discussão.
A defesa do tenente-coronel afirma que conteúdos da vida privada do acusado vêm sendo divulgados de forma descontextualizada, atingindo sua honra e dignidade. Os advogados também disseram estar “estarrecidos” com o que classificam como “decreto dúplice de prisão”, já que há decisões tanto da Justiça Militar quanto da Justiça comum pelos mesmos fatos.
Dinâmica do crime
Conforme a denúncia, o crime ocorreu no dia 18 de fevereiro, em um apartamento no bairro Brás, na região central da capital paulista.
Segundo a acusação, durante uma discussão, o tenente-coronel teria imobilizado a vítima por trás e efetuado um disparo de arma de fogo contra a cabeça dela.
O Ministério Público aponta ainda indícios de que o militar teria alterado a cena do crime para simular um suicídio.
Entre os elementos citados estão o laudo necroscópico, que indica disparo à curta distância, mas não encostado, e a reprodução simulada dos fatos, que afastaria a hipótese de suicídio.
Também foram identificados vestígios de sangue nas roupas do acusado, apesar de ele afirmar que não teve contato direto com a vítima após o disparo.
De acordo com a denúncia, o militar permaneceu no local por mais de 20 minutos antes de acionar socorro. Imagens de câmeras de segurança mostram que, ao sair do apartamento, ele estava com o cabelo seco. Em seguida, ele retorna ao imóvel e, minutos depois, reaparece com o cabelo molhado — o que, para a acusação, indicaria tentativa de sustentar a versão de que estaria no banho no momento do crime.
Para o Ministério Público, o conjunto de provas aponta para a adulteração da cena e construção de uma versão incompatível com os elementos periciais.
A acusação também menciona que o policial militar possui histórico de violência contra ex-companheiras e colegas de trabalho.
O caso segue em tramitação na Justiça.




