Maníaco predador sexual de crianças procurado por 4 anos acumula 90 anos de prisão em MT
O maior predador sexual de crianças já condenado em Mato Grosso, que em dois anos abusou sexualmente de oito meninas com idades de 6 a 11 anos, em bairros da região Norte de Cuiabá, hoje cumpre pena de mais de 90 anos de prisão. O nome do estuprador em série, Cid Mauro da Silva, 53, poderia ser o primeiro a constar do Cadastro Estadual de Pedófilos ou mesmo ser inserido no Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais, caso estivessem ativos. Mas não estão. Com isso, a história dele, até hoje, estava restrita à prisão, em 2018. Depois, ficou sob o sigilo dos processos. Cid, quando foi preso em Cuiabá, tinha histórico de crimes sexuais contra crianças no Mato Grosso do Sul.
A história de Cid é a primeira reportagem deste mês, quando o jornal A Gazeta lança a série Arquivo Laranja, em alusão ao Maio Laranja, mês de conscientização e combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. A série, além de resgatar os casos mais sombrios de violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes, busca denunciar e cobrar efetivamente de todos os segmentos da sociedade medidas de prevenção, proteção e amparo às vítimas vulneráveis.
O criminoso em série, hoje cumpre pena em unidade prisional da Grande Cuiabá. Em depoimentos, confessou que sentia um desejo muito grande por crianças e não conseguiria parar os ataques se não fosse preso. Sentia prazer em aterrorizá-las e ver as vítimas chorando em desespero durante os abusos. Sempre foi muito cuidadoso, agindo longe de câmeras de segurança e mantendo a cabeça coberta com o capacete, retirando a placa da motocicleta que usava.
Foi uma investigação muito difícil. Chegou a um ponto que eu já estava quase desistindo, mas foi Deus que fez a gente chegar nele, relata Darimar Carneiro Aguiar, investigador da Polícia Civil que na época era chefe de operações da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Deddica). Ele atuou por 14 anos na especializada, quatro deles investigando o criminoso em série classificado como maníaco que age de maneira cirúrgica. Isto porque ele escolhia previamente as vítimas de uma região e a partir daí preparava o melhor momento para o ataque.
Segundo Darimar, no caso de Cid, tinha uma dificuldade ainda maior pelo fato das crianças serem muito pequenas. Somente em um dos abusos sexuais ele retirou o capacete.
Como o próprio criminoso revelou em depoimentos, ele observava a vítima e depois de ter sentido desejo pela criança preparava o ataque. O próprio trabalho como motorista facilitava o acesso a elas, já que o estuprador dirigia ônibus para igrejas da região do Grande CPA e transportava crianças e adolescentes para eventos religiosos.
Depois de escolher a vítima, passava a monitorar a rotina da criança que era abordada no caminho de casa para escola. É importante lembrar que todas as vítimas eram crianças pobres, moradoras da periferia, que seguiam sozinhas ou em grupos apenas de crianças para as escolas. Totalmente vulneráveis, cita o investigador.
Como o maníaco já tinha um conhecimento prévio da vítima, se aproximava dizendo que um familiar havia pedido que ele a levasse de volta para casa. Em outros casos, oferecia uma pequena quantia em dinheiro para a criança comprar biscoitos e dizia que era para ela subir na moto que a levaria para comprar o lanche. Ou quando a vítima estava sozinha, era ameaçada de morte e obrigada a subir na garupa da motocicleta. A partir daí era levada até a região onde ocorriam os estupros. Depois, a vítima era abandonada pelo maníaco próximo da escola novamente.
Ameaças, medo e demora
Conforme o promotor de Justiça Rinaldo Segundo, que atua em crimes de homicídios e crimes sexuais contra crianças e adolescentes junto à 14ª Vara Criminal da Capital, as vítimas de Cid eram levadas para casas abandonadas, terrenos baldios nas proximidades do chamado linhão de energia elétrica, áreas com vegetação densa e imediações do antigo lixão do bairro Barreiro Branco. Nos locais, o maníaco praticava atos libidinosos diversos contra as crianças, sempre sob grave ameaça. Ao final, ameaçava as vítimas de morte caso contassem a alguém.
Cita que em uma das ocasiões, porém, o padrão foi rompido: uma menina de 8 anos, abordada em frente à escola Pedrosa Moraes, no bairro Novo Paraíso, recusou-se a subir na moto porque já sabia que outra criança havia sido abusada por um homem em uma moto. A menina correu, foi perseguida a pé pelo agressor, mas conseguiu alcançar o interior da escola antes de ser capturada. Por este caso, foi condenado por tentativa de estupro de vulnerável.
Em um dos casos a vítima seguia para a escola com um irmão menor, que ainda implorou para ela não subir na moto. Mesmo assim a criança foi e se tornou mais uma das vítimas.
Outra dificuldade da investigação, lembra Darimar, é o fato que algumas das crianças, por medo, não comunicaram imediatamente aos familiares que foram abusadas. Com a demora em começar a investigação, muitos dos vestígios do criminoso se perderam.
Padrão
Durante os quase quatro anos de investigação, os policiais já tinham um padrão do maníaco, mas faltava um rosto e o nome. Foi a partir da pista de uma das vítimas que chegaram a Cid Mauro. A criança lembrou da logomarca de uma empresa de transporte que estava na camiseta do abusador. A empresa já havia fechado há anos, mas os policiais conseguiram localizar a proprietária, no Mato Grosso do Sul.
Então, pediram a lista dos funcionários que atuaram na empresa. Quando chegaram à casa do suspeito, que morava na região dos ataques, se depararam com a moto e perceberam que ele tinha as mesmas características físicas do maníaco. Disseram a ele que estavam investigando assaltos, fizeram fotos dele e da motocicleta, que foram mostradas à vítima que havia visto o rosto dele. Ela confirmou que se tratava do abusador.
Cid Mauro foi preso no Hospital Municipal, quando visitava a esposa, que morreu logo depois. Preso, ele confessou inclusive crimes ainda não haviam sido denunciados à polícia.
Perfil
Exames, realizados em 2024, comprovaram que Cid Mauro era plenamente capaz de entender o caráter ilícito de seus atos. Os peritos destacaram que embora ele tivesse contato com outras crianças próximas ao seu convívio, não agiu contra elas, o que, segundo os especialistas, indicava um padrão de seleção consciente e deliberada de vítimas vulneráveis e desconhecidas.



