China seguirá dominante nas exportações do agronegócio brasileiro
O que isso tem de bom e ruim nós já sabemos. O que ainda não se sabe é como as muitas mudanças — de caráter estrutural —, promovidas pelo gigante asiático nos últimos 15 anos, impactarão a balança comercial agrícola
Como se dizia antigamente, “parece que foi ontem” que a China ultrapassou grandes importadores de produtos agropecuários do Brasil e atingiu a condição de maior comprador do setor em 2008. Em 2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões, equivalentes a 32,7% do total de US$ 169,2 bilhões exportados pelo agro brasileiro – 18 vezes os US$ 3 bilhões que a Índia comprou do setor em 2025. Aliás, apenas a Índia importa pouco do agronegócio brasileiro: em 2025, seus vizinhos Paquistão, com “apenas” 258 milhões de habitantes, comprou US$ 1,5 bilhão, e Bangladesh (177 milhões de habitantes), expressivos US$ 2,6 bilhões, segundo dados do comércio exterior divulgados pelo governo brasileiro. A boa notícia, no caso do mercado indiano (cuja população, de 1,4 bilhão de habitantes, é maior do que a chinesa desde 2023), é que a ApexBrasil, agência brasileira de promoção de exportações e investimentos, inaugurou escritório em Nova Délhi, capital do país, no dia 20 de fevereiro.
Traduzindo: nos próximos cinco anos pelo menos deverá continuar o domínio absoluto da China nas exportações do agro brasileiro. O que isso tem de bom e ruim nós já sabemos. O que ainda não se sabe é como as muitas mudanças – de caráter estrutural –, promovidas pela China nos últimos 15 anos, impactarão as exportações do agronegócio, no curto e médio prazos. Mudanças iniciadas com o 12º Plano Quinquenal (2011-2015), no qual houve alteração radical da estratégia de desenvolvimento econômico, com a decisão de continuar crescendo via consumo doméstico, e não mais via exportações. E a “Iniciativa Cinturão e Rota” (a “Rota da Seda Século 21”), que se propõe a efetivar conectividade mundial, a partir da China, percorrendo mais de 10 mil quilômetros em ferrovias, desde cidades como Yiwu, na província de Zhejiang, até capitais europeias, o que implica em fazer escalas em países da Ásia Central, com cargas de milhões de toneladas, em milhares de viagens de trem China-Europa-China, e integração marítima com o mundo inteiro.
Desde que iniciou essa mudança de rota, para desenvolver via mercado doméstico, a China ampliou as suas exportações, vendendo para o mundo US$ 3,8 trilhões em 2025, o que lhe proporcionou um superávit recorde de US$ 1,2 trilhão, porque as suas importações (US$ 2,6 trilhões) não cresceram no mesmo ritmo. Esse descompasso entre as exportações e as importações, tanto tempo depois da decisão de crescer via mercado interno, prova que o esforço governamental para importar mais do mundo esbarra na dificuldade da China em comprar. A estrutura de custos é diferente e a escala sempre maior, o que torna os preços dos produtos dos demais países sempre superiores aos seus. Como ter preços inferiores aos da China, se nossas mercadorias são transportadas em caminhões e pagamos juros reais sete vezes maiores?
Para estimular a oferta mundial de produtos, o governo central criou, há oito anos, a Feira de Importação da China, realizada de 5 a 10 de novembro, em Shanghai. Além dessa, específica para vender para o mercado chinês, há espaços para empresas estrangeiras em outras feiras, como o Salão Internacional de Alimentação (SIAL), que ocorrerá de 18 a 20 de maio, também em Shanghai – na qual muitas empresas brasileiras têm participado ativamente, no pavilhão da ApexBrasil.
Demandas e demandas
Priorizar o mercado interno significa “estimular o consumo doméstico”, algo que na China equivale a atender a demanda de sete Brasis O detalhe é que, lá como cá, além das enormes demandas aparentes, há muito maiores e “n” demandas reprimidas. A somatória das duas são grandezas muito difíceis de atender – principalmente as de alimentos. Isso porque a China promoveu, a partir de 1980, intensa migração das áreas rurais para as urbanas, com mais de 500 milhões de pessoas passando a viver em cidades. Essa mudança populacional resultou em ocupação crescente de áreas até então utilizadas para a produção de alimentos, e na mudança de condição, de produtores, para a de somente consumidores de alimentos. Ao mesmo tempo, com o progressivo aumento do poder aquisitivo da população chinesa, aumentou a quantidade consumida per capita e ocorreu mudança qualitativa do padrão alimentar, com mais proteínas animais e vegetais, frutas e lácteos, e menos cereais, tubérculos etc.
Apesar do esvaziamento populacional do campo, a produção de grãos na China aumentou, de 320 milhões de toneladas para 715 milhões de toneladas (cerca de 20% do total mundial), no período 1980-2025. Nesse mesmo intervalo de tempo, a população chinesa passou de 1 bilhão de habitantes para 1,4 bilhão. E o consumo de fertilizantes, de 20 gramas por quilo de grãos, da década de 1970, foi para 110 gramas por quilo de grãos nos anos 2000, tornando a China maior consumidor desses produtos, com quase 30% do total mundial.
Os elevados consumos de fertilizantes, agrotóxicos e diesel – para tratores e colheitadeiras –, são motivos de preocupação por causa da poluição e custos. A vantagem chinesa decisiva, em relação ao Brasil, é o transporte ferroviário, movido a eletricidade, que escoa as safras e leva insumos para todos os interiores do país a custos muitíssimo inferiores aos dos caminhões movidos a diesel que derrubam a competitividade “da porteira pra fora” do agro brasileiro. Na sequência das mudanças, a efetivação, após 15 anos, da participação plena na Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro de 2016, condição que favoreceu a expansão das suas exportações e o acúmulo de superávits comerciais – principalmente com os Estados Unidos – elevando as reservas cambiais do país acima do patamar de US$ 4 trilhões, o que lhe possibilitou emprestar ao Tesouro dos EUA mais de US$ 1 trilhão, tornando-se um dos três maiores credores da até então maior economia mundial – superado pela China em 2016, segundo o critério da paridade do poder de compra.
Foi em 2016 também que a questão alimentar acendeu a luz laranja, quando se perguntaram, no final de um evento para debater a agricultura, “quem vai produzir comida”, já que a área rural seguia esvaziando e envelhecendo, e pobre e atrasada em relação às cidades. Lançaram, então, em 2018 o plano de vitalização rural, para reduzir a pobreza nos interiores, modernizar a agricultura e possibilitar assim as tão sonhadas e decisivas segurança e soberania alimentares.
Dada a importância do Brasil enquanto fornecedor de recursos naturais, e a necessidade de manter baixos os preços dos produtos agropecuários e minerais, estão estudando participar na construção de ferrovias ligando as regiões produtoras brasileiras ao porto de Chancay, no Peru, inaugurado no final de 2024, construído e operado pela Cosco, megaempresa chinesa de navegação. Quando isso acontecer, talvez daqui a cinco anos, haverá redução substancial dos custos de insumos industriais para o agronegócio e dos custos de transporte de produtos das fazendas e frigoríficos para os navios, o que possibilitará à China continuar pagando preços baixos pelos produtos primários que compra em grande quantidade.
Confirmadas as previsões de grande redução populacional e de aumento da parcela idosa, com a diminuição da população nos últimos quatro anos, resta saber agora os impactos quantitativos e qualitativos dessas mudanças no mercado consumidor. Parece que está longe de acontecer, e é estranho imaginar a China com 400 milhões de habitantes a menos, porque se trata de 30% de encolhimento do mercado consumidor atual – o equivalente a dois Brasis a menos, em 50 anos.
Diminuirá a demanda alimentar, e ela será alterada, pelo aumento da quantidade de pessoas idosas. Dadas as quantidades de pessoas nas diferentes faixas etárias de 60 anos de idade ou mais, os mercados de consumidores da terceira e quarta idade na China serão nichos gigantes, com um total de 400 milhões de pessoas, concentradas talvez em 200 grandes cidades. São muitas mudanças ao mesmo tempo, e elas já estão acontecendo: menos gente, mais pessoas idosas e mais pessoas vivendo só em todas as faixas etárias.
Segurança e soberania
O teste da segurança alimentar da qualidade ocorreu em 2008, com a tragédia e escândalo do leite de vaca contaminado com melamina. Houve mais de 300 mil crianças contaminadas. Lembro-me das prateleiras vazias onde ficavam os lácteos chineses nos supermercados, justo no auge da campanha do governo de estímulo ao consumo e à produção de leite de vaca. Foi uma fraude de grandes proporções, realizada para lucrar mais. O prejuízo à saúde das crianças não foi superado com a punição dos criminosos, mas o episódio ajudou a endurecer a fiscalização de alimentos da própria China e, principalmente, daqueles importados. Depender do mercado internacional de alimentos é um risco que a China não quer continuar a ter. Reza a lenda que o país mantinha, nos anos 1970-1990, um estoque de passagem de 150 milhões de toneladas a 180 milhões de toneladas, grande o suficiente para suportar quebras de safra resultantes de desastres naturais, tão comuns em toda a Ásia, como inundações, secas, pragas, calor ou frio excessivos. Não se sabe quanto há hoje estocado, para garantir segurança alimentar e ajudar a evitar inflação. Talvez 20% a 30% da safra de grãos (ou seja, 140 milhões de toneladas a 210 milhões de toneladas), porque podem precisar e não haver disponível a quantidade necessária no mercado mundial.
Infelizmente, a conta não bate, da área agricultável e da produção necessária, por maiores que sejam as produtividades alcançadas. Em 2025, colheram 301 milhões de toneladas de milho, 209 milhões de arroz e 140 milhões de trigo. Mas a soja não saiu do patamar de 21 milhões de toneladas, o que obrigou o país a importar 112 milhões de toneladas – ou seja, se depender da soja, a tão almejada soberania alimentar ficará para as calendas. Ou não, porque estão produzindo substitutos proteicos para rações animais, e para passar dos atuais 8% para 80% do total consumido, é só uma questão de tempo. O episódio das cotas para carne bovina, determinada a partir deste ano, é um bom exemplo do quanto a China está disposta a atingir a autossuficiência alimentar. Vinho, café e laranja são também só questão de tempo. Continuarão investindo em novas tecnologias de produção com esse objetivo, inclusive recuperando áreas degradadas nas regiões autônomas da Mongólia Interior e Xinjiang, nas quais conseguiram sucesso nos desertos de Kubuqi, Tengger, Mu Us e Taklimakan.
É inacreditável, mas é verdade: o país maior exportador do mundo de vários produtos agropecuários depende mais de 80% de fornecimento externo de fertilizantes. Antes da exportação de soja para a China disparar, em 1999, o consumo de fertilizantes no Brasil era de 13,7 milhões de toneladas. Em 2025, foram 49 milhões de toneladas. E isso porque a soja consome pouco nitrogênio, graças à prática da fixação biológica de nitrogênio, que economiza muitos bilhões de dólares por ano. Pesquisas do Serviço Geológico do Brasil confirmam haver muito potássio no Amazonas e fosfato, em jazidas ígneas e sedimentares, em Minas Gerais, no Tocantins, no Pará, em Goiás, em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Consta que haveria saturação de fosfato nos solos agrícolas. Além do mais, uma planta industrial para produção de nitrogênio leva cinco anos para ser construída e precisa de gás natural.
O agro paranaense vendeu US$ 5,3 bilhões para a China em 2025 (22,5% do total exportado pelo setor) e comprou de lá US$ 4,3 bilhões de produtos industriais, sendo US$ 3 bilhões de fertilizantes e US$ 1,3 bilhão de herbicidas e outros agrotóxicos. Evidentemente, essa lógica não se sustenta. A China restringiu a exportação de fosfatados, mas liberou de sulfato de amônio, porque é sintético e ela produz muito. E assim ultrapassou outros fornecedores, tornando-se a maior para o Brasil. No caso do Paraná, por exemplo, no ano passado, as associadas da Coonagro adquiriram 468 mil toneladas, das quais 45% da China.
Estamos crescendo, mas…
O esforço conjunto dos adidos agrícolas das embaixadas brasileiras, da ApexBrasil, da secretaria de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, das associações empresariais e de grandes empresas, nos últimos anos, resultou em abertura de centenas de novos mercados para produtos agropecuários do Brasil em países asiáticos e de outros continentes, como também um aumento das vendas para tradicionais com potencial para muito mais, como o Japão.Um exemplo animador é o do gergelim: após a abertura do mercado chinês, em novembro de 2024, as exportações no ano seguinte alcançaram US$ 195,1 milhões.
A partir de 2026, as mudanças incluem a substituição gradativa do dólar pelo yuan, nas transações comerciais e financeiras, e a implementação das diretrizes do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), focado na modernização do país. Pode-se imaginar que não é pouca coisa o que pretendem conseguir em tão pouco tempo, para o país atingir a meta, em 2035, de alcançar um “nível básico de modernização socialista” e, em 2050, da conquista de “um país desenvolvido em todas as áreas”. Esse 15º Plano fecha o ciclo de implementação da “sociedade moderadamente próspera” alcançado em 2020, com o fim da pobreza extrema. Dito assim, parecem simples as metas da China para os próximos dez anos. Quando se traduz em números o que pretendem conseguir, fica difícil de se acreditar ser possível chegarem lá, porque os desafios para o desenvolvimento chinês aumentaram, tais as vulnerabilidades naturais com as quais a população convive: escassez de água, redução da área agricultável, avanço da desertificação e poluição. Mais a diminuição dos nascimentos e o aumento das mortes e da população idosa. A expectativa média de vida até 2050, para as mulheres, deverá superar os 90 anos de idade.
O estudo Projections of future life expectancy in China up to 2035: a modelling study, publicado na revista The Lancet, em 30 de março de 2023, prevê que a expectativa de vida ao nascer, em 2035, será de 81 anos, com mais de 80% de probabilidade das mulheres em Beijing atingirem 90 anos de idade. Nas províncias de Guangdong e Zhejiang e na municipalidade de Shanghai, a expectativa é de 50% de probabilidade de ultrapassarem 90 anos. E em Shanghai será onde os homens terão a maior expectativa de vida ao nascer em 2035, com 77% de probabilidade de viverem mais de 83 anos.
Como as cooperativas e empresas produtoras e exportadoras de minérios, madeira, celulose, grãos, carnes, frutas, erva-mate, cacau, azeite de oliva, cajuína, suco de laranja, cachaça, café e outros produtos, estão se preparando para as previsíveis alterações das importações chinesas? Vamos nos antecipar às mudanças na China para avançar qualitativamente na relação comercial, com a exportação de produtos primários com valor agregado? É verdade que a realidade brasileira, de custo financeiro estratosférico e matriz de transportes anacrônica, segue na contramão da lógica chinesa, mas o exemplo da Cofco, em Rondonópolis (MT), bem que poderia animar o empresariado de outras regiões. A empresa investiu em um terminal no porto de Santos no ano passado e está aportando recursos atualmente na ampliação da capacidade de esmagamento de soja, para passar das atuais 4,5 mil toneladas/dia para 10 mil toneladas/dia, para produzir farelo, óleo e biocombustível.
Com indústrias químicas nos interiores do Brasil, podemos nos livrar da sina de exportadores de produtos primários in natura (no caso da soja, há mais de 50 anos), utilizando conhecimentos disponíveis há bastante tempo, e reverter o processo de esvaziamento populacional dos interiores, com a atração de jovens com formação técnica e universitária para trabalhar nessas indústrias, localizadas nas regiões produtoras, com economia substancial de transporte de matéria-prima. O agrônomo Décio Luiz Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja, um dos fundadores do Comitê Estratégico Soja Brasil e membro do Conselho Científico Agro Sustentável, defendia, no artigo “A fascinante profusão de usos da soja” um maior aproveitamento da soja, como substituta do petróleo, “em especial no conceito de química verde”.
Para ele, pesquisador da Embrapa desde 1974, “a diversidade de produtos é impressionante, e não para de crescer. Borrachas, fibras, plásticos, revestimentos, solventes, biodiesel, lubrificantes, adesivos e milhares de produtos de consumo utilizam a soja como ingrediente.” “(…) são necessários processos como epoxidação, alcoólise, transesterificação, acidulação, esterificação direta, metátese, isomerização, modificação de monômeros e polimerização. Assim são obtidos seis insumos industriais básicos: a) triglicerídeos; b) ésteres de ácidos graxos; c) epóxidos de óleo de soja; d) epóxidos de ésteres de ácidos graxos; e) glicerina; e f) aminoácidos. A partir do óleo de soja podem ser outros insumos como resinas, látex modificado, diluentes reativos, aditivos funcionais, diácidos, dióis e dispersões de poliuretano”, detalha Gazzoni.
Teremos outra safra recorde em 2026, com possíveis 180 milhões de toneladas de soja. Comemoramos o recorde da venda in natura de 108,2 milhões de toneladas dessa matéria-prima fantástica também no ano passado, com receita de US$ 43,5 bilhões, e continuamos dependendo da importação de fertilizantes da China e de outros países distantes. Sempre me perguntam, no curso a respeito da China, “como” ela fez e continua fazendo para se desenvolver tanto. Pois bem, três das principais decisões estratégicas da China que explicam seu sucesso foram justamente construir indústrias no interior, ligar todas as cidades de todas as províncias e regiões por meio de ferrovias e colocar o sistema financeiro a serviço do desenvolvimento do país.
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Fonte: amanha.com.br/categoria/economia





