Nem lama, nem caos
Os novos adultos vão a um festival de rock
Foram-se os tempos em que ir ao Rock in Rio era uma pequena saga, em função da distância (Jacarepaguá), da lama ou do mau cheiro dos banheiros (“tem que usar máscara de gás”, debochava o lendário jornalista musical Jimi Joe durante a edição de 1991). Hoje é possível assistir ao festival sem perrengues comprando o que a CVC, operadora turística oficial do evento, promete ser “só o melhor do rolê”: pacotes com ingresso, transporte e hospedagem. Um produto direcionado a adultos que curtem música, mas que já passaram da idade de enfrentar dissabores por causa de seus ídolos. Tanto que o anúncio mostra um sujeito com aparência de roqueiro 40+, de cabelos longos e tatuagem, vestindo uma camiseta com uma mensagem sugestiva: “old school, cantar abraçado e…ar-condicionado”.
Costumamos dar bastante atenção às transformações dos extremos da vida, mas não às de seu miolo. Fala-se muito em infâncias, adolescências e velhices em mutação, e pouco sobre a meia-idade. Contudo, ser um sujeito em seus 30, 40 ou 50 anos, hoje, não é a mesma coisa do que décadas atrás.
A começar pelo fato de que a chamada maturidade tem demorado mais para chegar. Casamentos e paternidades são adiados em prol de estadias longas na casa dos genitores ou de arranjos informais e kids free. Ser pai ou mãe de pet, aliás, está quase se tornando uma categoria demográfica à parte, dada sua aceitação social. E não é incomum encontrar aqueles que não abandonam hábitos da juventude, como o colecionismo, os esportes de ação (surfe, skate), os RPGs e o videogame. Não por acaso o termo kidult popularizou-se.
Uma tendência que já vinha se desenhando desde o início dos anos 1990. A futurista Faith Popcorn afirmava, naquele princípio de década, que os comportamentos típicos de cada idade estavam sendo redefinidos. “As gerações antigas traçaram uma linha clara entre os prazeres, buscas e compras apropriados para as crianças e (…) para os adultos. (…) Os adultos estão agora redesenhando a linha” (p. 55). E além das miniaturas e dos jogos de tabuleiro, mencionava outra inclinação emergente da sociedade norte-americana: o escapismo. Referia-se a expedições ecoturísticas, à prática ocasional de esportes radicais e a viagens de safáris, por exemplo. Cujo propósito ela traduzia assim: “Embarque-me numa outra vida. Mas traga-se de volta para o jantar” (p. 31).
Guardadas as proporções e o espírito de cada tempo, o que a CVC promete aos roqueiros é algo parecido: reviver uma experiência típica de adolescência sem as partes ruins.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil





