Bem-vindo(a). Hoje é
Mais previsões: Tempo Lisboa

Sol, a culpa deve ser do sol

Sol, a culpa deve ser do sol
Compartilhe!

Ou será que é nossa?

Se o consenso científico sobre as mudanças climáticas estiver correto, o aumento das temperaturas médias irá deflagrar episódios meteorológicos extremos mais frequentemente

Dizem que Porto Alegre tem cinco estações: outono, inverno, primavera, verão e “a gosma” – aquele período, lá por janeiro e fevereiro, em que temperatura e umidade do ar elevadas se unem para tornar a capital gaúcha quase inabitável. Um combo capaz de “desmaiar Batista”, outra terminologia útil para defini-lo, visto que baseada em fato testemunhado ao vivo – e que deu origem às pausas para hidratação nos Gauchões da vida e, hoje, no Mundial da FIFA.

Meses atrás foi o serviço meteorológico japonês que procurou palavras ou frases de espanto que permitissem emitir alertas de calor mais fáceis de entender pela população. E entre tantas sugestões, elegeu esta: um dia em que os termômetros passam de 40ºC é “cruelmente quente”.

Expressão perfeita para a Europa atual, sob um início de verão impiedoso. Por lá, os adjetivos têm sido um pouco mais fortes (“selvagem“, “ameaça pública“) ou literários (“perturbador“), tornando obsoletos os desbocados e bem-humorados. Pudera. Há sofrimento real (mortes por hipertermia e afogamentos) e certa estupefação (“vai ser assim daqui em diante?”). Para um continente historicamente preparado para o clima oposto, a questão se impõe, mesmo.

Pois então: vai, sim. Se o consenso científico sobre as mudanças climáticas estiver correto, o aumento das temperaturas médias irá deflagrar episódios meteorológicos extremos mais frequentemente. Exigindo não só adaptações no cotidiano de famílias, empresas e cidades, como também do nosso palavreado, que precisará ser renovado para dar conta da diferença entre o que conhecíamos como frio, calor, chuva e vento, e aquilo que se avizinha.

Num primeiro momento, aposto, prevalecerão os adjetivos à la japonesa e europeia, direcionados às condições atmosféricas. Mas à medida que as gerações atuais forem substituídas pelas próximas, será que a linguagem não se voltará contra nós, os que sabíamos da caminhada rumo a um cenário irreversível e não nos mobilizamos para valer, preferindo aguardar que das COPs saíssem as soluções redentoras? É provável que nossos filhos, netos e bisnetos não imprequem contra os céus, e sim contra quem os antecedeu nesta Terra. Não sem uma dose de razão, por sinal.

Da falta de um vocabulário de alerta, nunca padecemos. Sou de uma geração que já ouviu tudo quanto é expressão para descrever praticamente o mesmo fenômeno: buraco da camada de ozônio, aquecimento global, mudança climática, emergência climática e, mais recentemente, crise climática. Sempre numa progressão de gravidade e preocupação, nunca o contrário. Que desculpa nos resta?

A do próprio calor, quem sabe. Que, como canta Chico Buarque, “estoura as veias, e o suor embaça os olhos e a razão“.

Vai ver foi isso que nos impediu de agir.

Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil

-----------------------------------