Os clássicos não morrem
A natureza atribulada dos tempos de hoje mostra que a geopolítica, que já foi considerada uma disciplina superada, emerge com força
Nos anos 1990, quando li “O Choque das Civilizações”, de Samuel P. Huntington, tive a clara sensação de que ele dera uma contribuição definitiva para entendermos como o mundo se organizava. Segundo o paradigma que embasava o livro, a humanidade se divide em oiro blocos civilizacionais. Cada um comunga de uma herança cultural comum a vários países e, quase sempre, vale para centenas de milhões de pessoas.
O primeiro deles é o Ocidental, que abrange Europa Ocidental, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia. O segundo é o mundo Islâmico, que cobre o Oriente Médio, o Norte da África, partes da Ásia e o arquipelago da Indonésia. O terceiro é o mundo Sínico, ou Confuciano-Chinês, que engloba a China, o Vietnã e a Coréia. A civilização Hindu, o quarto bloco, tem como núcleo a Índia e, a exemplo do anterior, se ramifica. Em seguida, temos o bloco Ortodoxo, nucleado na Rússia, que abrange o Leste Europeu e a Grécia. A Nipônica, no Japão, que mistura valores orientais com modernidade. E a Latino-Americana, considerada uma derivação da Ocidental. A penúltima é a Africana, o que vale para a parte Subsaariana do continente. E a Budista, de contornos mais subjetivos e interpretativos.
Nesse contexto, Huntington aponta o peso das diásporas que tentaculizam a força de influência dos povos para além do território, caso da civilização chinesa e indiana. Trinta anos depois de anunciado, o paradigma continua válido ao enfocar as zonas de fricção, que degeneram em guerras, quando as “placas tectônicas” das civilizações entram em atrito. Pouco depois de lançado, o mundo vivia transformações. Com o colapso da URSS, a queda do Muro de Berlim e a aparição da China como potência global, cristalizou-se a noção de que o fim da Guerra Fria assinalava a derrocada do socialismo, que ficara de joelhos diante do capitalismo. Fukuyama falou do Fim da História. Como a sequência mostrou, os vetores de Huntington se provaram duradouros.
Nenhum historiador contava com as chamadas lideranças disruptivas. A natureza dos padrões de comunicação e de valores deu origem a personagens como Trump e Putin. Mas em ambos os casos, temos os ecos das civilizações que representam. No caso do americano, ele fala de destruição de civilizações num diapasão histriônico. O que prenuncia?
No caso do russo, tem razão o Chanceler Lavrov. Segundo ele, Putin, no afã de restaurar o poder imperial, só dá ouvidos a Pedro, o Grande; Ivan, o Terrível e Catarina, a Grande. As guerras em curso espelham o que Huntington anunciou. Ucrânia, Irã e Oriente Médio são alguns dos casos. O Cáucaso e Taiwan apontam para os novos palcos onde a fricção é esperável.
Há alguns anos, era comum que estudantes de relações internacionais se preocupassem com o futuro da carreira. Haveria um mercado para além da diplomacia de Estado ou a docência? A natureza atribulada dos tempos de hoje mostra que a geopolítica, que já foi considerada superada, emerge com força, dando lugar a think tanks que monetizam a leitura de um panorama sutil e complexo. São bons ventos para os internacionalistas.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil




