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China: o colapso populacional avança. E agora?

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China: o colapso populacional avança. E agora?
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É possível que dentro de 50 anos a quantidade de habitantes volte ao 1 bilhão que havia em 1981, o que significará 400 milhões a menos do que hoje

Será necessária uma verdadeira revolução na China, a partir de agora, para que o país consiga reduzir a velocidade com que caminha para o colapso populacional, e até mesmo tentar reverter o fenômeno

Dez anos antes da definição da “política do filho único” na China (1979), o economista e professor brasileiro Paul Singer, em seu livro “Dinâmica Populacional e Desenvolvimento” afirmava que “a oportunidade de crescimento natural acelerado da população aparentemente não se oferece mais que uma vez em cada país, que é quando o decréscimo da mortalidade não é acompanhado de uma redução da fertilidade.” Na sequência, alertava: “A transformação cultural da qual resulta a queda da fertilidade tende a ser irreversível, em certa medida, e por isso é aconselhável que a racionalidade econômica de qualquer política populacional seja cuidadosamente verificada antes que se tente sua aplicação.” (Introdução – População e Desenvolvimento Econômico, pág. 20)

Reli esse trecho do livro de Paul Singer na terça-feira (19) após saber, por vários sites de notícias, que o Escritório Nacional de Estatísticas da China informou ter havido 7,9 milhões de nascimentos no país em 2025 – a quarta queda sucessiva da quantidade de nascimentos, desde 2022. Essa nova queda, agora de 1,6 milhão em relação a 2024, comprova que não deram certo as iniciativas do governo para animar jovens a terem filhos(as): um valor anual de 3.500 Renminbi (RMB) por criança, para ajudar nas despesas; tributação de anticoncepcionais para ficarem mais caros; eliminar taxas de creches públicas; e, obviamente, propaganda. Tratamos da crise populacional na China aqui em “Conexão Ásia” três vezes nos últimos anos – em outubro de 2023, novembro de 2022 e em junho de 2021 – no qual ousadamente asseguramos que “a situação demográfica da China não tem volta”.

Agora, com a diminuição de 3,4 milhões de habitantes ocorrida em 2025, resultante da diferença entre as 11,3 milhões de mortes e os 7,9 milhões de nascimentos, a população da China teria voltado a 1,4 bilhão, quantidade existente em 2018. Lembrando que a “virada” ocorreu em 2022, quando o saldo populacional foi negativo pela primeira vez em 60 anos. Tantos nascimentos a menos e tantas mortes a mais, de 2022 a 2025, parecem confirmar as previsões mais drásticas para a população chinesa, primeiro da revista The Lancet, publicada em julho de 2020, e agora (2025) da Divisão de População das Nações Unidas, em sua publicação “World Population Prospects 2024 – Summary of Results” (pág. 53): sair dos atuais 1,4 bilhão de habitantes para 1,22 bilhão, em 2054, e inacreditáveis 638,7 milhões em 2100.

Nessa perspectiva, faz sentido que a tendência, daqui pra frente, seja de aumento constante da diferença entre mortes e nascimentos, conforme avance o envelhecimento e aumentem as quantidades de jovens que não querem ter filho(a); ou aceitem ter, mas apenas um(a) – quantidade que não altera em nada a situação atual. Após 45 anos do início da “política do filho único”, a China encontra-se no dilema oposto ao de 1980 – como continuar desenvolvendo o país com a população diminuindo? Nesse ritmo, é possível que dentro de 50 anos a quantidade de habitantes volte ao 1 bilhão que havia em 1981, o que significará 400 milhões a menos do que hoje. Com tanta gente a menos, como ficará a ocupação dos imóveis no país e quais os impactos nos mercados imobiliário, da construção civil e de móveis? Como lidar com 30% de ociosidade nos espaços de todas as estruturas, inclusive universidades? Talvez ainda não haja respostas para essas questões.

O que já existe, desde quando ficou evidente (em 2015) o “dano colateral” da redução populacional, causada pela política do filho único, é um enorme esforço tecnológico para substituir humanos em atividades produtivas em todos os setores da economia. Por isso, a China é a campeã de robôs no mundo, com dois milhões industriais em fábricas, dos quais 295 mil incorporados em 2024 – de um total mundial de 542 mil naquele ano. Japão e Coreia do Sul, também em marcha acelerada para colapso populacional, instalaram 44,5 mil e 30,6 mil, respectivamente; os Estados Unidos 34,2 mil; e a Índia apenas 9,1 mil robôs. Essas e outras informações sobre o avanço da robótica no mundo estão disponíveis no relatório “World Robotics 2025”, da Federação Internacional de Robótica (IFR), de setembro de 2025.

Evidentemente, a possibilidade concreta de colapso populacional na China até 2100 requer ações objetivas urgentes, de caráter estrutural e em grande escala, dos governos e do conjunto da sociedade chinesa, que vão muito além das iniciativas já tomadas e do aumento da automação e da robótica no país. E com certeza, uma campanha por mais crianças é incomparavelmente melhor de se fazer do que a anterior, para ter apenas uma.

Revolução para evitar o colapso
Será necessária uma verdadeira revolução na China, a partir de agora, para que o país consiga reduzir a velocidade com que caminha para o colapso populacional, e até mesmo tentar reverter o fenômeno, com políticas efetivas, para: 1) reduzir muito os preços dos aluguéis e de venda de apartamentos; 2) apoiar financeiramente jovens famílias, com os gastos adicionais da gestação até a universidade; 3) acesso a creches públicas; e 4) um conjunto de outras ações facilitadoras, a serem identificadas rapidamente com pesquisas de opinião.

É possível que haja resistência nos governos a tantas “ajudas” a jovens mães e pais para que tenham filhos. E é compreensível também, afinal de contas são quase meio século com uma lógica que agora será necessário inverter – e ir além, porque não bastam duas crianças por casal para sair da crise atual, são necessárias três crianças para haver esperança de rejuvenescer a população chinesa, que deverá ter 400 milhões de pessoas idosas (60 anos de idade e mais) até 2035.

Esse é o desafio, impensável há dez anos: três filhos(as) por casal de 20 anos de idade (adiar para 30-35 anos de idade a primeira criança significa adiar por 10-15 anos o início da possível solução). Desafio também porque esse universo, de eventuais futuros pais e mães, é constituído, em grande parte, por jovens que são filhos(as) únicos(as) e, portanto, não têm o hábito de cuidar de crianças, de conviver em casa com bebês a adolescentes. Será um choque cultural de grandes proporções, sem dúvida. Outro aspecto importante é que na China boa parte das crianças pequenas são cuidadas por avós e avôs. E cuidar de uma criança pequena é uma coisa; outra coisa, bem diferente (quase impossível), é cuidar ao mesmo tempo de três, com idades e ritmos diferentes.

Uma coisa é certa: sem alterar radicalmente as questões objetivas que impedem ou dificultam muito ter filho(a) na China, o país continuará na direção do colapso populacional previsto para 2100. Ainda que mais de 600 milhões de habitantes continue sendo uma população enorme, é importante ter presente que a proporção de pessoas idosas na época deverá ser superior a 50%. E nenhum país no mundo tem a experiência de lidar – e sustentar – tanta gente idosa (e tão idosa: haverá milhões na faixa de 90 anos de idade e com 100 anos e mais).

Conhecendo-se a capacidade da China em resolver problemas de grandes proporções, a exemplo da redução da pobreza, que beneficiou 800 milhões de pessoas, é possível que o país consiga realizar as alterações necessárias, e, dentro de dez anos, retome os nascimentos no patamar de 16 milhões a 18 milhões anuais, para obter um saldo positivo de dois a quatro milhões, que lhes permita, até 2054, reduzir a queda e estabilizar em 1,2 bilhão, chegando em 2100 com 800 a 900 milhões. Quaisquer que sejam os efeitos das políticas, recursos (financeiros e humanos) e propaganda para enfrentar esse gigantesco desafio populacional da China, uma coisa é certa: impactarão o Brasil, a curto prazo, por redução das demandas alimentares e de recursos naturais. E, hipótese que não deve ser descartada, também por eventual atração de jovens descendentes de chineses, para mudarem e viverem no país de seus ancestrais. 

Fonte: amanha.com.br/categoria/economia

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