Guardado só pra mim
Os objetos que não se pode mostrar, por medo
A expressão “consumo conspícuo” todo mundo conhece. Descreve o exibicionismo daqueles que compram e ostentam para obter a admiração alheia. Menos difundido é o seu quase oposto, o “consumo inconspícuo”, que acomete pessoas que compram itens caros e prestigiosos, mas em função da falta de tempo, não conseguem usá-los. Uma das marcas da chamada sociedade do cansaço.
Pois a este último conceito pode-se acrescentar uma tipologia nova e bastante particular ao Brasil: a não utilização de certos bens pelo temor de tê-los roubados. E quem contribui com sua caracterização é o chef, empresário e apresentador de TV, Felipe Bronze: “Acho uma delícia poder possuir as coisas de que gosto, mas uma tristeza não poder usar. Ter medo de sofrer uma violência. (…) Relógio, por exemplo, é um negócio que sempre achei bacana, mas perdi o prazer de usar”.
Contudo, não são apenas sujeitos ricos e bem-sucedidos como Bronze os acometidos por esta insegurança. Ela atinge também os mais pobres, como revelam os moradores de favelas cariocas, alvos de ações policiais que saqueiam seus domicílios e de assaltantes em linhas de ônibus.
A iminência de perder o pouco (ou muito) que se conquistou em qualquer esquina deveria, por lógica, tornar o brasileiro menos materialista. Afinal, por que alimentar o desejo e o apego a objetos que, de uma hora para outra, podem passar às mãos de terceiros por meio da ameaça física?
Porque embora o consumo seja definidor da identidade das classes sociais locais, em função das desigualdades de origem que as caracterizam, ele se afirma menos na exibição do que na de aquisição. Este traço nacional foi identificado pelo psicanalista italiano Contardo Calligaris (1948-2021):
“A palavra de ordem (no Brasil) é gastar para adquirir. (…) [C]omprar é demonstrar ao mundo a própria capacidade de gastar” (p. 150-1).
Daí que o status não advenha dos objetos, e sim do dispêndio que exigem, fomentando uma engrenagem que determina até as decisões empresariais:
“[P]or que calcular um preço a partir do custo, se o consumidor só vai” medi-lo “pelo desafio que ele se coloca às suas possibilidades de gasto, e não pelo suposto valor do bem?” (idem, p. 154).
Faz sentido — e nos dois extremos da pirâmide social. Entre a população de baixa renda, a pobreza não é definida pelas condições de moradia ou pelo salário apertado, e sim pela falta de acesso ao crédito. Podendo arcar com as prestações do que quer que seja, a pessoa sente-se inserida.
E entre os privilegiados? Bem, voltemos a Felipe Bronze. Guardadinhos em casa, ele tem três Panerai e oito Rolex.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil






