O novo downsizing?
Empresas cortaram 300 mil cargos executivos desde 2020 no Brasil
Às vezes, viver e trabalhar no Brasil oferece sensação análoga a de enxergar do alto de uma montanha um fenômeno meteorológico severo se aproximando. É possível observar os transtornos que ele causa em geografias alheias a uma distância segura, ao mesmo tempo em que se preparam mãos, mentes e espíritos para enfrentá-lo logo a seguir.
Nos negócios, então, esta é uma constante – inclusive agora. Nos últimos seis anos, o país eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria. Um processo explicado pela crise nas cadeias de suprimento desencadeada pela pandemia e pelo impulso no uso de tecnologias gerenciais, iniciado mais ou menos na mesma época.
Segundo analistas, multinacionais com filial no Brasil têm procurado acumular “mais responsabilidades em menos indivíduos“, numa reprodução de movimento iniciado por suas matrizes. Com a economia crescendo a taxas modestas e os juros em patamar elevado, a prioridade é manter a funcionalidade operacional.
Pois se o achatamento dos organogramas foi importado da Europa e dos Estados Unidos, é bem provável que suas consequências, por aqui, sejam parecidas com as que têm sido acompanhadas por lá. E a julgar por matéria do Business Insider a respeito, elas não são nada positivas.
Em 2013, nos EUA, cada gestor tinha, em média, 8,2 profissionais sob seu comando; esse número cresceu para 9,0 em 2019 e alcançou 12,1, em 2025. As tais “responsabilidades concentradas em menos indivíduos”, vê-se, traduziram-se não só em tarefas acumuladas, como também em equipes maiores as quais comandar.
O efeito, segundo o site, é a vigência do megagerenciamento. Executivos sobrecarregados por múltiplas atribuições e incumbidos de supervisionar um elevado número de subordinados, mas sem condições de se aprofundar – nem nas primeiras, para garantir sua excelência, nem nos segundos, a fim de praticar a “gestão humanizada” ou o desenvolvimento um a um.
“O resultado é uma liderança focada no imediato e na urgência operacional. A empresa até roda, mas roda ‘na força'”, aponta um consultor brasileiro atento ao tema (A era do megamanager: quem sustenta o meio da empresa?).
O mesmo profissional elenca as potenciais repercussões: queda na qualidade da decisão, piora do clima organizacional, acúmulo de erros, retrabalho e, claro, esgotamento e aumento da rotatividade de funcionários.
Veio-lhe a vaga lembrança de um modismo dos anos 1990 chamado downsizing?
Sinal de que você já está escolado em observar intempéries gerenciais do alto de alguma montanha brasileira.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil






