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A vez que eu quase briguei com Ed Motta

A vez que eu quase briguei com Ed Motta
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No empurra-empurra, meu cotovelo bateu na costela dele

A conversa do casal girou em torno do barraco que Ed Motta armou num restaurante da Lagoa por conta da cobrança de uma “taxa de rolha” (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Hoje tive um almoço simpático e solitário, mergulhado que estava em pensamentos que não tinha como aprofundar. Antes da chegada do meu prato, li o essencial do primeiro jornal e deixei o segundo para depois da sobremesa. Ainda assim, pude acompanhar a conversa das mesas ao lado. À minha direita, dois amigos conversavam com uma inusitada franqueza sobre os negócios e a saúde. Deviam ter uns 40 anos. Na falta de referência a mulheres ou filhos naquele diapasão de cartas na mesa — só houve menção às mães —, me ocorreu que aquela intimidade podia revelar um casal em formação. Por que não? Um deles revelou a preocupação com o antisemitismo. Não houve nenhuma menção às palavras-chave associadas a esse debate, que passam pelo seminal 7 de Outubro. Nada. Achei muito interessante. Era como ler um livro sem alusão a nomes de cidades, bairros, bares ou esquinas. Tudo era tão somente sentimento. Um deles, o mais falante, que começou a gaguejar um pouco à medida que a conversa aquecia, disse ao outro, sem se referir a quaisquer candidatos: “Vou anular o voto. Não quero nem dar um crédito a quem está contra nós, nem acho bom ficar associado à turminha da pesada, que pode gostar da gente hoje e descartar amanhã.” Eu bem que tinha pensado em chamar Alberto Moghrabi para almoçar. Na hora, ouvindo a conversa, me arrependi amargamente de não tê-lo feito. Além de tudo, estou com saudades dele.

À minha esquerda, duas mulheres conversavam tensamente. O que é “tensamente”? É dando ênfases excessivas aos detalhes das frases. É como se sublinhassem o texto. “Terminei indo SOZINHA ao cinema. NÃO resisti. Estava morrendo de curiosidade para ver o DIABO”. Quase me engasguei com as folhas da salada niçoise. O que será que uma ruiva turbinada daquela queria com o satanás no escuro? Fiquei decepcionado quando a ficha caiu. Era o filme de Meryl Streep, e não o demo encapetado. Pediram uma jarra de vinho com frutas, um sanduíche de salmão e uma quiche. A ruiva satânica era tão despudoradamente linda que senti um alívio quando vi que ela tinha o nariz ligeiramente grande. Era como se eu dissesse para mim mesmo: “Não fosse esse nariz, eu teria que me habilitar à luta”. A outra não era tão bela. Mas era mais interessante. Mais para chata do que para simpática, era uma dessas mulheres que tornam a vida divertida quando você a tem do seu lado. Conheço a referência. Mas foi quando os caras da mesa esquerda saíram que chegou um casal que, pelo jeito, era irmanado pelo amor ao vinho. O restaurante talvez não fosse para tanto, não é nenhum paraíso para enólogos, mas tampouco faz feio. A conversa deles girou em torno do barraco que Ed Motta armou num restaurante da Lagoa por conta da cobrança de uma “taxa de rolha”, devida aos restaurantes quando você resolve trazer o seu vinho. Eu pensava: como se pode brigar na Lagoa, um lugar tão lindo? Será que Cora Rónai estava lá?

Ed Motta é meio encrenqueiro, muito embora ele só tenha arremessado uma cadeira no balcão. Isso é quase um afago comparado ao estrago que ele poderia fazer se agisse como um rinoceronte lancetado. Furioso, falo com conhecimento de causa. Ele teria reduzido aquele bistrozinho ao esqueleto, como um terremoto de 8.2 faria com um sushi bar de Nagoya. Mas uma coisa é certa: Ed Motta é belicoso. Há três tipos de gordo: o bonachão, que quer ser simpático com todo mundo para compensar o desequilíbrio funcional que leva aos lugares que frequenta. O ensimesmado, que baixa a cabeça e come liturgicamente, de acordo com o que ele acha que a casa espera de um comensal ventripotente. E o terceiro é o gordo que resolveu fazer das banhas uma fortaleza onde se alojam lado a lado soberba, empáfia, hubris e autocomplacência. Nos anos 1980-1990, quando eu ainda não estava inscrito em nenhuma das categorias acima, mas Ed, sim, ficamos lado a lado no balcão de um bar chamado Radar Tantã. Eu vivia uma época estranha. De segunda a sexta, era um yuppie que parecia levar a empresa dentro de mim. Nos fins de semana, quando conseguia me desvencilhar dos puxa-sacos, eu gostava de ir a uns lugares underground em busca da juventude que se esfumava. Voltando ao Tantã. Em dado momento, fui ao banheiro. No empurra-empurra, meu cotovelo bateu na costela de Ed Motta. Ora, havia ali carne para amortecer uma espada. Pois não é que ele quis brigar comigo? Uma dose a mais, teríamos saído no soco.

E a rolha, pagar ou não? Não custa telefonar para o restaurante. Eu mesmo gosto de levar os meus vinhos. Mas se a taxa de rolha for excessiva, é melhor escolher um rótulo do restaurante. Eu adoro levar Champagne, minha bebida favorita. No restaurante custa facilmente R$ 900. O que eu faço? Compro por UU$ 60 no free shop e pago de bom grado R$ 100-R$ 150 de taxa de rolha. Quanto dá? Metade do valor do restaurante e todos ficam contentes. Recomendo oferecer o seu vinho para a degustação do sommelier da casa. Ele vai gostar. Ou vai rir nas suas costas, não importa, mas você fez a sua parte do ritual. Não leve vinho barato, ordinário, mesmo que você goste daquele “bem docinho”. Não se esqueça que a casa vai lhe disponibilizar um ou dois garçons, copos impecáveis, toalhas alvíssimas e um ambiente tão mágico que você dificilmente reproduziria vestido na sua casa. Mas tem restaurantes que não cobram. Não são muitos, mas há alguns. Se você se sentir estressado com essa agenda rococó, tome cerveja. Ou então pare num boteco ali perto e faça um esquenta com suas beberagens favoritas. Mas cuidado para não chegar no ponto em que Ed Motta saiu. O barraco dele saiu na Globo. O seu pode acabar numa delegacia da rua Estados Unidos, como já vi acontecer mais de uma vez. Ed volta ao restaurante, pede desculpas, acena com uma canja numa noite à base de Perrier e ainda vai receber — se é que já não recebeu — um Bourgogne de Boni. Com a gente, não.

Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil

jorge-ruan