Duro de matar
O pen-drive, quem diria, saiu dos escritórios para as boleias dos caminhões
Os novidadeiros que me desculpem, mas poucos assuntos são tão interessantes quanto as tecnologias que, mesmo superadas, mantêm-se vivas graças a pequenos segmentos de consumidores. É o caso do pen-drive. Sucessor do CD-ROM na portabilidade de dados, teve seu papel de armazenador de arquivos de trabalho e de música vencido pela nuvem e pelos serviços de streaming, respectivamente. E estaria enterrado em algum cemitério das tecnologias obsoletas não fosse uma categoria profissional bem específica: os caminhoneiros.
Explica-se. O acesso à Internet nas estradas é difícil. Não há cobertura de wi-fi em boa parte das rodovias brasileiras. Então, a solução para ouvir uma musiquinha e espantar o tédio ao volante é trazer as canções previamente gravadas, no bom e velho dispositivo acoplável a entradas USB. O interessante é que os compilados de músicas não são gravados pelos caminhoneiros, e sim comprados prontos. E quem se encarrega da seleção musical são os chamados “DJs de pen-drive”.
Vêm deles algumas lições de marketing, aliás. Primeiro, sobre o produto. É preciso estar sintonizado com o gosto médio do público-alvo para escolher as faixas preferidas. Há coletâneas de sertanejo, caipira, rock, gospel e hits de décadas passadas, além de miscelâneas ecléticas. E para conferir um diferencial na era dos algoritmos, a “curadoria” do cancioneiro é totalmente humana, complementada por locuções entre uma faixa e outra, bem ao estilo dos antigos radialistas, funcionando também como uma companhia durante o percurso.
Depois, há a sacada sobre a distribuição. Que melhor lugar para colocar um produto como este do que postos de gasolina e restaurantes de beira de estada?
A terceira lição está no preço. Em torno de R$ 20, o que permite a um caminhoneiro comprar vários desses pen-drives ao longo de um ano e, ainda assim, economizar muito em relação às assinaturas de streaming, que chegam a R$ 300 por doze meses.
Finalmente, há a gestão do ponto-de-venda. Para aproveitar a compra por impulso, os dispositivos ficam expostos nos caixas dos estabelecimentos.
Com tudo isso, essas unidades USB diferem de outras tecnologias obsoletas que apenas foram transferidas de mercado, mas não sofreram transformação nem geraram novas oportunidades de empreender.
“Na rua, na chuva, na fazenda… você leva suas músicas aonde quiser”, diz o slogan do Spotify pago.
Para sorte dos DJs de pen-drive, não é bem assim – e para quem curte uma boa curiosidade marqueteira, também não.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil




