Eu assim sem você
Empresas fecham as portas e deixam clientes inconformados
A tradicional rádio Eldorado, de São Paulo, pertencente ao Grupo Estadão, fará sua última transmissão na próxima sexta-feira (15). Não sem o lamento de uma ouvinte fiel que lançou abaixo-assinado digital e convocou uma manifestação na Av. Paulista para evitar o fechamento. “Não consigo imaginar minha vida sem as vozes da Roberta Martinelli, do Emanuel Bomfim e do Leandro Cacossi”, disse a artista Nina Vogel, responsável pela rebelião, em referência aos locutores do prefixo. “O encerramento de uma instituição cultural dessa relevância (…) não pode ser tratado como uma decisão estritamente interna. Trata-se de uma questão de interesse público. A Rádio Eldorado é também nossa rádio”, escreveu ela.
Compreensível demasia. Certos produtos e serviços são assim: acabam incorporados ao cotidiano e, quando descontinuados, deixam uma sensação de perda e desconforto difícil de superar inicialmente. Na mídia, sempre dinâmica, a orfandade é recorrente. Anos atrás, o cancelamento do podcast Foro de Teresina, da revista piauí, foi comparado a um término de relacionamento por uma colunista, enquanto a desativação do site No Mínimo e o fim da revista Primeira Leitura, há mais de duas décadas, deixaram ao menos um eterno inconformado: eu.
E restaurantes, então? Sua existência física torna palpável a dor da freguesia abandonada, especialmente quando longevos. Se alguns ainda tiveram a oportunidade de despedida digna, como estes ícones porto-alegrenses, outros fecharam provisoriamente na pandemia ou na enchente para nunca mais reabrir, sem direito à sua última dança. Uma pena.
Existem ainda aqueles negócios cujas hipóteses de transferência de dono ou mudança de formato são vistos como ameaças existenciais pelos consumidores. Minha falecida mãe tinha dois temores na vida: que o Zaffari fosse vendido e a edição impressa de Zero Hora, extinta. Era a maneira como expressava um sentimento semelhante ao de Nina Vogel em relação à Eldorado: a de se sentir tão cliente quanto dona.
Muito melhor do que o inverso, diga-se de passagem: esperar a solidariedade popular quando, na verdade, a continuidade do negócio é um interesse muito mais privado, de proprietários e funcionários, do que coletivo. Foi o engano que cometeu o lendário Breno Caldas quando da interrupção da circulação do Correio do Povo, em 1984. O herdeiro da Cia. Jornalística Caldas Júnior confidenciara “a um amigo que ‘o povo se levantaria’ exigindo a volta do Correio. Isso aconteceu. Mas não com a potência por ele imaginada, tanto que a manifestação não foi muito além de telegramas, cartas, telefonemas e perguntas pela rua”, afirmou Walter Galvani na biografia do jornal (Um século de poder, p. 483).
Por isso, os dirigentes da Eldorado devem se sentir menos incomodados do que lisonjeados pelo levante da ouvinte irresignada: estão diante do maior elogio que uma empresa pode receber.
Fonte: amanha.com.br/categoria/brasil




