Mato Grosso supera média nacional de homicídios e acende alerta no Atlas da Violência
O Brasil atingiu em 2024 o menor patamar de homicídios de sua série histórica, com 42.590 casos oficiais (20,1 mortes por 100 mil habitantes), uma redução de 7,4% em relação ao ano anterior. No entanto, o Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira, 26 de maio, pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, faz uma revelação preocupante: a melhora nos indicadores nacionais convive com um aumento crítico na subnotificação e na fragilidade dos registros oficiais.
O grande alerta do estudo gira em torno dos “homicídios ocultos”, classificados inicialmente como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Entre 2023 e 2024, essas mortes sem causa definida explodiram 88,6% no país, saltando de 3.755 para 7.083 casos. Para os pesquisadores, essa piora na qualidade da informação cria um perigoso “ponto cego” estatístico.
Mato Grosso na contramão: violência acima da média nacional.
Embora o país registre queda, Mato Grosso acende o sinal de alerta máximo. O estado registrou uma taxa de 29,1 homicídios por 100 mil habitantes, ficando significativamente acima da média nacional (20,1).
- Os números de MT: O estado contabilizou 1.102 homicídios. O número representa uma leve queda de 1,7% em relação ao ano anterior, mas esconde um agravamento severo a médio prazo.
- Alerta de longo prazo: Nos últimos cinco anos (2019 a 2024), Mato Grosso registrou uma alta de 14,1% na taxa de assassinatos. Em números absolutos, as mortes violentas cresceram 23,1% nesse período.
- Efeito “Morte Indeterminada”: Assim como no cenário nacional, o Atlas destaca que a aparente redução anual em solo mato-grossense deve ser lida com extrema cautela, devido ao crescimento das mortes por causas não identificadas, que podem estar mascarando homicídios reais.
Juventude e minorias continuam sendo os principais alvos.
O relatório traça um perfil cruel da letalidade e da vulnerabilidade social no Brasil ao longo da última década:
- Jovens: A juventude permanece no centro da violência. Entre 2014 e 2024, mais de 301 mil jovens de 15 a 29 anos foram assassinados no país uma média de 75 por dia. A violência é majoritariamente masculina (93% dos jovens mortos em 2024 eram homens) e armada (armas de fogo respondem por 84,1% dos casos na faixa de 15 a 19 anos).
- Mulheres: Os homicídios de mulheres caíram 27,7% em dez anos, patamar puxado por crimes ocorridos fora de casa. No entanto, os assassinatos dentro do ambiente doméstico permaneceram estáveis, provando que o feminicídio não recuou. Mulheres negras têm taxa de mortalidade 66,7% superior às não negras.
- População Negra: Em 2024, 32.820 pessoas negras foram assassinadas (89,9 por dia). A taxa de homicídios de negros é 170,3% superior à de não negros. Um cidadão negro tem 2,7 vezes mais chances de ser morto no Brasil.
- Indígenas e Comunidade LGBTQIAPN+: A taxa de homicídios de indígenas superou a média nacional em 22%. Já os casos de violência notificada contra homossexuais e bissexuais dispararam 212,7% em 11 anos, evidenciando uma grave falta de registro oficial sobre as motivações desses crimes pelo Estado.
A nova vilã da letalidade: a precarização no trânsito.
Além da violência urbana direta, o trânsito se consolidou como uma das principais frentes de morte no país, registrando 37.150 óbitos. O grande motor desse crescimento foi a expansão da economia de aplicativos de entrega.
As mortes envolvendo motocicletas ferramenta de trabalho de parcelas vulneráveis, especialmente no Norte e Nordeste saltaram 38% entre 2019 e 2024. Longas jornadas, pressão por produtividade e falta de proteção social colocaram os motociclistas na linha de frente do risco letal no país.



