Líder religioso é condenado a mais de 8 anos por abuso com manipulação espiritual em Cuiabá
O líder religioso Luiz Antônio Rodrigues Silva foi condenado a oito anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado, por violação sexual mediante fraude contra duas adolescentes. A decisão foi proferida na última sexta-feira, 10 de abril, pelo juiz João Bosco Soares da Silva, da 14ª Vara Criminal de Cuiabá.
A condenação ocorre cerca de um mês após o réu ter sido absolvido em outro processo que tramitava na mesma comarca, mas em vara diferente, no qual também era acusado de abuso contra outras mulheres.
Manipulação da fé
De acordo com a sentença, o condenado utilizava sua posição como líder espiritual para se aproximar das vítimas e convencê-las de que atos sexuais faziam parte de supostas obrigações impostas por entidades espirituais.
A Justiça entendeu que houve comprometimento da liberdade de escolha das adolescentes, caracterizando a fraude. Em um dos casos, a vítima foi levada a um motel sob o argumento de que realizaria um “pagamento espiritual”.
O magistrado destacou que houve abuso de confiança e exploração da crença religiosa das vítimas, ressaltando que, em contextos de desigualdade de poder, a manipulação espiritual é suficiente para invalidar o consentimento.
Padrão de conduta
Segundo o processo, os crimes seguiram um padrão. Em outra situação, o vínculo com a vítima começou ainda na adolescência e se prolongou por anos. O réu alegava que o relacionamento era autorizado por entidades cultuadas no local religioso.
A repetição das condutas levou a Justiça a reconhecer continuidade delitiva, o que contribuiu para o aumento da pena.
Outras medidas
Além da prisão, a decisão determina:
- Perda do cargo público ocupado pelo réu
- Pagamento de indenização por danos morais às vítimas
Investigações e denúncias
Conforme a Polícia Civil, o suspeito utilizava a plataforma TikTok para divulgar atendimentos espirituais e atrair vítimas. Os encontros eram marcados em um espaço onde ele alegava realizar práticas religiosas.
Segundo depoimentos, durante atendimentos individuais, ele se aproveitava da situação para cometer os abusos, alegando que os atos eram realizados por um “espírito encarnado”.
Repercussão
Para o promotor Rinaldo Segundo, a decisão representa um avanço no combate a crimes cometidos com uso da fé, especialmente contra vítimas em situação de vulnerabilidade.
Já a advogada Karime Dogan criticou o fato de outro processo semelhante ter resultado em absolvição, apontando possível falha na análise das provas e classificando o caso como exemplo de “violência institucional”.
Defesa
A defesa do réu sustenta que ele é inocente. Até o momento, não houve novo posicionamento após a condenação.
O caso segue repercutindo e levanta debates sobre o uso da religião como instrumento de manipulação e a responsabilização em crimes de natureza sexual.




